Conto gótico: Ele não a encontrará quando voltar

 
  Estava ela, sentada próximo ao precipício onde sempre se encontravam, abaixo da triste lua que foi encoberta por espessas nuvens, céu sem estrelas, apenas com a luz de uma vela quase toda derretida, debruçada em seu violão, mas já não tinha vontade de toca-lo não desejava mais ouvir seu som.
 Tal som que vagava em seus sonhos, mas não o som deste violão e sim o do seu amado ruivo, este que durante muito tempo a acompanhou, tornando-a cada dia menos infeliz, preenchendo sua vida de cor e deixando com uma única certeza. E durante essas noites escuras de pleno breu, vivia a reclamar para a lua:
  -Sim este é o meu amado! Pena que apenas posso chama-lo de amigo...
  Sempre se perguntava se deveria ser feliz por ter essa amizade ou triste por saber que jamais passaria disso... Ele chegou sorrateiramente, com sua pele rosada, olhos tão negros quanto a noite e seu cabelo vermelho como as chamas da mais ardente fogueira. Estava tragicamente marcado para partir e se despediu:
  - Sinto muito Flor, mas minha passagem por aqui é breve, jamais esquecerei os momentos que passamos juntos, sua amizade foi o melhor tesouro que eu poderia ter encontrado.
  -Mas por que ira me deixar assim? Se somos tão felizes juntos não há motivos para nos separamos! Quem vai tocar violão para mim? Quem vai me divertir com piadas sem graça...e ...
  -Sua ingratidão me desola! - Ele a interrompeu - Como pode dizer que minhas piadas são sem graça? Mas isso é relevante... o importante é o que eu estou te deixando, te ensinei a tocar, isso te fará feliz. Quando a terrível caveira da saudade e da solidão bater em sua porta, pegue seu violão e olhe para a lua, ouça o vento soprar e assim se lembrara de mim.
 - Não me abandone eu o amo! Não tenho duvidas que daria certo com você...
 - Flor se me ama comprovara que a ausência diminuí as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e atiça as fogueiras. Eu gosto muito  de você mas agora num dá... Quem sabe um dia...
   E num doloroso suspiro sentiu os lábios de seu amado tocar-lhe o rosto que estava banhado em lágrimas, não moveu um músculo, apenas respirava por que era um movimento involuntário, parecia que seu coração iria parar naquele instante estavam arrancando um pedaço de sua alma.
  O silêncio tomou conta, quase se podia ouvir o coração dele disparado, talvez um pouco assustado com aquela revelação inesperada, mas do que nunca sentiu que não deveria ir. Mas com firmeza em seu olhar pegou sua bagagem, virou as costas e seguiu andando levando o sorriso e o pouco de alegria que tinha dado a ela. Como se não bastaste, antes de sumir na mais densa escuridão, gritou a o longe:
  - Não me espere voltar mas também não me esqueça!
  Gerando essas gotículas de esperança ouvia essas palavras ecoarem na mente dela, que já não via motivos para ver mais uma vez o amanhecer, levantou-se com seu cabelo preto e seu vestido branco esvoaçante com a brisa. O violão caiu ao chão e acabou o pavio da vela que era sua única fonte de luz.
  Com o quem caminha para a morte só conseguia pensar em como poderia ter sido feliz com seu amado ruivo se ele não tivesse partido, três passos ao precipício, segundos depois ouviu-se um baque estrondoso e surgiu o sol no horizonte.

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